Professores x Pandemia
- Clínica Maiêutica
- 23 de mar. de 2021
- 3 min de leitura

O universo dos professores é algo que particularmente sempre me interessou,
pois trata-se do meu universo também. Após um ano de trabalho docente
remoto, muitos memes já foram criados em torno do trágico-cômico cotidiano
do professor, que precisou adaptar um espaço de sua casa em sala de aula e
administrar de forma articulada e não tão discriminada sua rotina doméstica e
profissional. Em meio às notificações de alunos que não param de chegar,
meets, aulas síncronas, assíncronas, elaboração de atividades digitais e
impressas, reuniões com pais de alunos e coordenadores pedagógicos, estão a
preparação das refeições, cuidados com a casa e assistência aos filhos.
Essa mudança brusca de rotina, que afetou diferentes categorias profissionais
no teletrabalho, rendeu estudos como o realizado pela Universidade do
Estado do Rio de Janeiro (UERJ), publicado pela revista The Lancet. De
acordo com a pesquisa, apenas no primeiro quadrimestre de 2020 houve um
aumento de 90% nos casos de depressão e o número de pessoas que relataram
sintomas como crise de ansiedade e estresse agudo mais que dobrou.
Segundo a diretora da Fiocruz Brasília, Fabiana Damásio, os problemas de
saúde mental no trabalho estão ligados a três pilares: tempo, espaço e
condições. Referente ao tempo nota-se uma ausência de limites entre o
trabalho e a vida pessoal, o entrecruzamento e empilhamento de tarefas de
ambas esferas. Nem sempre se tem espaços de trabalho privativos ou
condições de internet compatíveis com a demanda, e nesse sentido,
esbarramos com a questão das desigualdades sociais tão díspares em nosso
país.
A OMS (Organização Mundial da Saúde) aponta aumento dos índices de
suicídio, depressão, preocupação, medo, ansiedade, da violência doméstica,
fragilidade das redes de proteção e uso abusivo de álcool e outras drogas.
O fato é que somos sujeitos sociais, estabelecer relações, trocas, interações
não é apenas atividade de fruição, eu diria que é condição para ventilarmos os
afetos, pois transitarmos em diferentes atmosferas emocionais sustenta nossa
resiliência, ou seja, nossa capacidade de suportarmos os estímulos estressores
sem sucumbirmos ou adoecermos.
Contudo, e não sem dor, temos resistido, cada um com suas defesas psíquicas,
estas postuladas por nada mais, nada menos do que o pai da Psicanálise -
Freud. Há aqueles que:
✓ simplesmente negam, os já denominados Coronacéticos;
✓ racionalizam e assim se eximem por meio de justificativas infindáveis
sobre o erro dos outros, nunca se incluindo.
✓ hiperfocam e ruminam pensamentos negativistas, os denominados
Coronalarmistas;
✓ evadem ou procrastinam, adiando as tomadas de decisões importantes
para segurança própria e de seu entorno;
✓ deslocam suas dores no primeiro e mais frágil que cruzar seu caminho
(cuidado, os filhos costumam ser alvos fáceis);
✓ regridem e adotam comportamentos infantilizados, como atitudes
egocêntricas ou destemperadas sem motivo sólido (crises disruptivas);
✓ projetam seus pensamentos, ansiosos por exemplo, para terceiros,
afirmando que o fulano está muito nervoso com a situação e que
portanto, é melhor todos ficarem atentos.
✓ anulam comportamentos, por exemplo, são rudes com as pessoas
próximas e depois passam o resto do dia buscando agradá-las com
favores e gestos carinhosos.
A saída mais equilibrada seria a da sublimação, que implica em canalizarmos
nossos anseios e desejos para outras atividades ou alvos de forma construtiva.
Quando, por exemplo, conseguimos diante da inquietação própria da
ansiedade descarregarmos a tensão acumulada em uma ação motora, como:
lavar alguma coisa, caminhar, se exercitar, cantar, tocar um instrumento,
arrumar armários, organizar roupas, etc... Dessa forma, temos grande chance
de minorar o estado de sofrimento emocional. Ficar pensando não costuma
ajudar, a não ser que façamos isso junto com um amigo confidente e
auxiliador, e em casos mais crônicos, com um profissional da saúde mental. Se
precisa de um, não hesite!
Estamos alicerçados numa tríade que envolve a saúde física, emocional e
espiritual. E precisamos cuidar de cada uma delas, embora tenhamos dado
destaque apenas para a primeira.
Cuidar das emoções requer observar-se, conhecer-se, antecipar seus gatilhos
de ansiedade e medo e identificar estratégias de sublimação para o
enfrentamento. Cuidar da espiritualidade por sua vez, pressupõe considerar
nossa existência enquanto seres únicos, propósito de vida, formas de conexão
com o momento presente, consigo mesmo, com os outros e com a natureza.
Na verdade, espiritualidade, pode ser, cultivar o que é sagrado para você e em
você! Cada pessoa encontra um caminho para viver sua espiritualidade, alguns
nas religiões, outros nos esportes, outros nas diferentes expressões da cultura.
Qual é o seu caminho? O que lhe é sagrado?
Para mim, por exemplo, algo sagrado é a voz de crianças...acredito que estejam na mesma frequência que os
anjos...
Flávia Moreno, doutora em psicologia.
#professores #pandemia #segredo #saudemental #mentesa #saladeaula #cultivarosagrado #bemestar #depressao #ansiedade #ensinoadistancia #psicologia
Comments